Como prever caminhos possíveis para o desenvolvimento das cidades?

Nasci em São Paulo, cresci e passei praticamente a vida toda aqui. Cruzo constantemente com pessoas que aqui transformam seus sonhos em realidade. Apesar da loucura, do ritmo frenético, onde o urgente não dá espaço ao que importa, aqui se vive. Quem consegue ter uma vida com qualidade de tempo, sono, trabalho, estudos, lazer e saúde são poucos. Para muitos, essa realidade é ilusória. Pra alguns, tá ruim, mas tá bom: se tá pagando as contas, tá valendo. 

Por outro lado, tenho percebido cada vez mais frequente o anseio de se discutir sobre cidades. O que elas representam na vida das pessoas; as relações que se constroem a partir dela e com ela; a quem elas servem e quais necessidades elas suprem e deixam de suprir, levando em consideração os diferentes cenários, tomados pelas diferentes condições sociais, incluindo, suas desigualdades e opressões. Observo que a necessidade de ocupar as ruas e fazer do espaço público um palco para essas discussões é tão emergente que já estão acontecendo (cada vez mais). 

Pouco tempo atrás parei para refletir sobre a minha condição de vida e, considerando que moro em um bairro privilegiado, central, que me oferece pronto atendimento para qualquer dor de barriga que eu venha a ter, comecei a pensar: que outras realidades existem? Será que é utopia desejar a mesma qualidade de vida para todos ou podemos pensar em possíveis mudanças levando em consideração que a realidade da maioria não é como a minha?

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Direito à cidade: desafios e caminhos possíveis.

Participei da segunda edição do curso Direito à cidade: desafios e caminhos possíveis, realizado na ocupação Butantã, cujo foco foi apresentar uma visão ampliada sobre a ideia do direito à cidade, a partir de uma demanda colocada: a discussão atual sobre cidades. Nesse sentido, a intenção era abordar alguns tópicos em pauta, como: mobilidade urbana, espaço público e opressões.  

Segundo dados da ONU, mais da metade da população mundial vivem em cidades. No Brasil, a população residente em ambientes urbanos já ultrapassa 80%. Esta situação configura cidades marcadas por muitas contradições: de um lado grandes oportunidades de trabalho, produção de riquezas econômicas e o surgimento de polos de inovação artística e cultural, de outro ausência de espaços verdes, congestionamentos intermináveis e profundas desigualdades sociais. Poucos aproveitam as boas coisas oferecidas pela cidade e todos vivem as mazelas produzidas por este estilo de vida urbana.

Do conceito à prática

O dia em que nascemos não determina apenas o início da nossa vida, mas um marco no ponto de vista histórico da cidade, já que somos inseridos em um contexto específico.

Para o filósofo Lefebvre, a cidade não é algo intocável, ela se modifica ao longo do tempo. E uma vez que o espaço é um produto das relações sociais, se as relações se modificam, o espaço também se modifica. Por isso, estamos em constante transformação.

O curso deixou evidente que a cidade que temos atualmente é produto histórico das relações capitalistas. João Victor Pavesi, quem nos introduziu ao tema, procurou desfazer qualquer interpretação que desnaturalizasse a situação urbana atual, apontando para a possibilidade de mudança nas relações sociais. Em suas palavras: "a cidade é produto da história e, dessa forma, não foi sempre do jeito que está hoje e nem será assim para sempre". 

Planejamento e mobilidade

No segundo encontro, o Rafa Drummond falou sobre mobilidade urbana. Esse é um dos pontos mais sensíveis quando se fala em direito à cidade, porém não é uma problemática que deve ser vista de maneira isolada. Quando falamos de moradia, distribuição de ofertas de emprego no território ou novas centralidades, estamos falando de mobilidade urbana e como a cidade irá se mover para cumprir suas atividades. 

Uma coisa é certa: se não resolvermos o problema do acesso à terra e o uso que a sociedade lhe impõe, nunca conseguiremos resolver os dilemas e os problemas de mobilidade. 

Saída de campo

Fizemos uma saída de campo para conhecer melhor alguns pontos que fazem parte do nosso contexto histórico na cidade de São Paulo. Foi uma experiência vivencial que permitiu que observássemos com atenção os conflitos e contradições da vida urbana, suas possibilidades e marcas históricas.

Saímos da ocupação Butantã e fomos para a ponte Eusébio Matoso. Só nesse trajeto, uma série de assuntos foram levantados para reflexão, como o percurso dos rios Pinheiros e Tietê e sua dimensão histórica e social, a enchente causada pela Light em 1929 e suas heranças, a especulação imobiliária, as ocupações, as operações urbanas na cidade, entre outros.

Um dia chuvoso bastante característico na terra da garoa, em que literalmente voltamos ao tempo dos nossos avós e, como um relógio que acelera à velocidade da luz, chegamos no momento presente, sentindo a ponte trepidar. Naquele momento, um filme passou sob os meus olhos ao imaginar tudo o que São Paulo já viveu e tudo o que ainda tem por viver. 

Próximo destino: o antigo terreno contaminado que virou a praça Victor Civita, através da parceria entre o Grupo Abril e a Prefeitura de São Paulo. A praça, já premiada por implementar soluções sustentáveis, conta com decks suspensos, de modo que os visitantes não tenham contato direto com o solo, já que, por 40 anos, funcionou como repositório de resíduos tóxicos. 

Em seguida: Largo da Batata, Escola Estadual Fernão Dias, Praça Gastão Vidigal, Rua Verde, Shopping Iguatemi, Clube Pinheiros, Mercado Municipal de Pinheiros, Casa do Bandeirante e uma cervejinha porque ninguém é de ferro. 

Direito à cidade para mulheres negras, LGBTs, para todas

No terceiro encontro, a Haydee Svab e a Joice Berth falaram sobre a necessidade de avaliar a cidade sob o aspecto das desigualdades sociais e das opressões de classe, raça e gênero existentes a partir dessa realidade. 

Por meio de exemplos de rotinas de três personagens comuns, que têm recursos diferentes à disposição e que desempenham papéis de gênero diferentes, fica nítido perceber que a (restrição de) mobilidade também é diferente, ou seja, como a cidade de cada sujeito é diferente em tamanho e em oportunidades.

Em São Paulo, especificamente, o quadrante sudoeste detém poder e também apresenta um perfil de faixa de renda, cor e gênero bastante distinto da cidade periférica.

Apropriação do espaço público

Quando falamos em direito à cidade, necessariamente tocamos na problemática da propriedade e do uso e ocupação da terra. Enquanto estivermos encerrados na lógica da propriedade privada, haverá limites na expansão de direitos (já que nem todos tem acesso à propriedade). 

Por fim, a Camila Haddad fala sobre algumas possibilidades de atuação, levando em consideração o fato de que a cidade é um bem comum e nós, cidadãos, não só temos o direito, mas somos corresponsáveis pela construção de um lugar melhor para se viver.  

Os cinco encontros oferecidos pelo curso serviram apenas para fazer cosquinhas e me deixar com mais vontade de entender um pouco mais sobre o assunto. Quem, assim como eu, quiser se familiarizar mais, pode acessar o link do encontro ou entrar no grupo do Facebook.

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Sobre os facilitadores do curso:

João Victor Pavesi. Nascido, crescido e criado na cidade de São Paulo. Aqui me formei em Geografia e atuo como professor desde o início da graduação. Optei pelo magistério por acreditar conseguir sugerir aos educandos outras formas de ler o mundo, mais crítica e distanciadas do status quo. Através do ensino de Geografia busco acessar as tramas cotidianas dos estudantes para, a partir da experiência vivida, sugerir algo diferente. Trago comigo a experiência com movimentos sociais, principalmente na temática urbana. Atualmente venho me aprofundando na temática do Direito à Cidade, estabelecendo relação entre educação e justiça sócio-espacial.

Rafael Drummond. Estudei jornalismo com o objetivo de ser comentarista de futebol, mas a minha paixão por cidades acabou me levando a estudar planejamento urbano em Buenos Aires, Argentina. Hoje a mobilidade urbana é o que me move profissionalmente e me leva a caminhos e ao convívio com pessoas que nunca havia imaginado.

Haydee Svab. Engenheira Civil com dupla formação em Arquitetura pela USP, mestra em Engenharia de Transportes também na Poli-USP e especialista em Democracia Participativa, Repúblicas e Movimentos Sociais pela UFMG. Sou membro da comunidade Transparência Hacker e co-fundadora do PoliGNU – Grupo de Estudos de Software Livre da Poli-USP, bem como do PoliGen – Grupo de Estudos de Gênero do PoliGNU. Enfim, uma militante que enfrenta o cotidiano lembrando sempre os motivos que a levaram a ser feminista, defensora dos direitos humanos (de todas gerações) e entusiasta de software, tecnologia e cultura livres: igualdade e liberdade.

Joice Berth. Arquiteta, urbanista, feminista, colunista do portal Justificando e Nó de Oito, pesquisadora de questões raciais e feminismo negro.

Camila Haddad. Me considero uma entusiasta do tema colaboração. Dediquei minha pesquisa de mestrado à economia colaborativa e desde então tenho investigado e experimentado modelos colaborativos de trabalho e aprendizagem. Esse ano, iniciei um doutorado informal em gestão de bens comuns e alternativas à propriedade privada. Sou uma das fundadoras do Cinese.