Empreender é uma viagem - com passagem só de ida!

Construir o futuro que desejamos nem sempre é uma tarefa fácil. Mas, quem disse que é impossível? Conheça a história de três brasileiras que escolheram a Nova Zelândia para se reinventar e encontraram no empreendedorismo o estilo de vida e trabalho que sempre sonharam.

 Foto: Ivan Ferreira

Foto: Ivan Ferreira

Por Mayara Castro

Sentir o frescor da atmosfera neozelandesa pela primeira vez é uma experiência inesquecível. Aposto que se você também se lembra do dia que pousou aqui. Foi no dia 6 de março que peguei o vôo direto de Bangkok para Auckland, a cidade onde muitos imigrantes desembarcam em busca de conquistar o tão sonhado inglês fluente e aprimorar o currículo. O que muitos não sabem - e nem elas sabiam - é que, quando menos se percebe, o intercâmbio vai somando um ano ou dois e a vontade de voltar para casa só vem para reafirmar que já estamos nela.

Encantadora por natureza, essa é a Nova Zelândia. Ver suas ruas amplas e livres de qualquer poluição ou sujeira, sentir o vento entre os dedos que traz consigo o cheiro de grama molhada, caminhar descalça entre os animais nos parques da cidade e pegar feijoa direto do pé me fizeram sentir em uma cidade do interior muito bem equipada para me receber, com exceção do comércio que fecha cedo, mas é por uma boa causa: a noite é feita para dormir, afinal, o melhor daqui se aproveita durante o dia.

Viajar para um país por conta própria é um grande passo na vida. Exige visão de futuro, planejamento, paciência e bastante estudo. É como empreender uma ideia: dá trabalho no começo, mas os resultados dos nossos esforços geram ferramentas poderosas para usarmos em nosso cotidiano e, mais que isso, oferecem preparo para os sonhos que ainda virão.

A decisão de vir para a Nova Zelândia, por mais planejada que seja, nunca é determinante, afinal você só sabe o que lhe espera, quando chega. No caso da Érika Carneiro foi uma verdadeira aposta que começou com o intercâmbio para aprender inglês. Hoje, dona da única distribuidora na Oceania de uma das maiores marcas brasileiras no segmento cama, mesa e banho, a Karsten, ela conta que chegou sem falar uma palavra em inglês, com um filho de dois anos nos braços e bem determinada a dar um upgrade no currículo.

Não poderia ser diferente para a baiana de personalidade forte e sorriso estampado no rosto que imprime toda a beleza do nosso Brasil tropical. Depois de fazer de tudo e mais um pouco nos 12 anos que somam sua trajetória no país - estudar inglês, depois business, trabalhar na área de hospitalidade, empreender um café móvel, casar, engravidar novamente, vender o negócio e voltar a estudar - desta vez para realizar o sonho de se tornar designer de interiores, se havia uma coisa da qual ela realmente sentia saudade eram as nossas cores e estampas. Em um determinado dia, Érika conta que sonhou com a Karsten e não demorou muito para convidar a marca, que fora a primeira a registrá-la como funcionária aos 18 anos, para uma parceria. Então, em 2016, nasceu a Brasiwi Ltda. Hoje, além de importar os produtos direto da fonte, a empresa também conta com manufatura própria na área de decoração, também em parceria com a multinacional, responsável por fornecer as estampas. Um novo ciclo para a marca que começa a dar as caras nas vitrines de Auckland.

A Nova Zelândia tem apenas duzentos anos, não à toa é um país aberto para receber pessoas do mundo todo que estejam interessadas em ajudar no seu desenvolvimento. Talvez por isso seja um dos países mais fáceis de empreender, burocraticamente falando. O solo é fértil para plantar a sementinha.

Poucos de nós, percebemos, entretanto, que paciência e determinação são os principais atributos que podemos desenvolver se queremos colher os frutos dos nossos esforços no futuro. No caso da Roberta Crossley, fundadora da Yep!NZ junto com a sócia Rosana Melo, tudo começou quando ela pisou no país para ficar um mês. Quando percebeu, já estava envolvida o bastante para querer voltar.

Formada em Psicologia no Brasil e em Business na Nova Zelândia, Roberta trabalhou no Consulado da Austrália, em agência de intercâmbio até migrar para a sua área, de Recursos Humanos. Ao casar e engravidar, viu a necessidade de se reinventar. O nascimento da YEP!, entretanto, foi intuitivo, já que não havia passado por uma boa experiência quando foi agenciada. Como o país havia acabado de conceder permissão para estudantes trabalharem por meio período, viu ali a oportunidade que faltava para criar um estilo de vida com mais qualidade e menos estresse. Desde 2014, a YEP!NZ vem desenvolvendo um atendimento personalizado, pautado exclusivamente nas necessidades dos clientes.

Nada paga a sensação de conquistar autonomia para criar ao nosso próprio modo, a vida que queremos levar. Não existe maior alegria do que ver os nossos valores impressos em nossos produtos e serviços, servindo perfeitamente a quem os consome, que nos escolhe não apenas para suprir uma necessidade pontual, mas porque sabe que houve entrega e dedicação da nossa parte. É isso que gera conexão, mesmo que estejamos do outro lado do mundo, nos relacionando com pessoas de culturas completamente diferentes.

Conhecer o trabalho da Adriana Branco, fundadora da Little Botanics, confirmou o que aos poucos a economia vem mostrando, com o aumento do número de pequenos empreendedores no Brasil e no mundo: quando compramos de um produtor local, ajudamos a manter vivas iniciativas que se debruçam em memórias culturais e a passar todo o conhecimento para frente, além, claro, de ajudar a fortalecer a comunidade.

Nesse caso, é interessante pensar que a empresa de cosméticos naturais, veganos e orgânicos produzidos com recursos naturais da fauna e flora neozelandesa foi desenvolvida por uma brasileira, arquiteta, eterna estudiosa de práticas naturais de saúde e bem estar e certificada em Organic Skincare Formulation, aqui na Nova Zelândia. Nada mais característico para um país construído por imigrantes, não é?

Adriana, logo que chegou aqui, há mais de dez anos, se estabeleceu em sua área como arquiteta, mas conta que não houve nada melhor do que a decisão de trabalhar com aquilo que mora em sua essência. Essa busca veio à tona quando se tornou mãe e, nesse momento crucial da vida de toda mulher, foi convidada a se ressignificar por inteiro. Resgatou, então, os ensinamentos passados pela sua mãe e se dedicou em oferecer uma rotina de cuidados que leva em conta, em primeiro lugar, a saúde de sua família.

Além da dedicação em produzir cosméticos livres de qualquer tipo de componente químico, derivado animal - incluindo a cera de abelha - e óleos que possam dar alergia à pele do bebê como o de amêndoas, por exemplo, existe todo um ritual de harmonização do ambiente que antecede a produção dos cremes, feito com cristais, incensos, velas e orações. Não à toa os feedbacks têm sido extremamente positivos, conta.

Se o trabalho é o lugar onde passamos a maior parte do nosso tempo de vida, por que não fazer algo que amamos? Você já parou para pensar naquele sonho que continua engavetado porque você não teve coragem de sair da sua zona de conforto? Por que teve medo das consequências ou não acreditou que seria capaz? Se você experimentar olhar para os dez últimos anos de sua vida, quais sonhos você já realizou? E o que falta para colocar em prática os que ainda deseja realizar?

Prazer, meu nome é Mayara Castro. Sou jornalista de formação, viajante de coração, empreendedora e nômade digital. Em meu dia a dia, me dedico fielmente à ajudar pessoas protagonistas de ideias transformadoras a ressignificarem seus passos na direção de empreender o estilo de vida que desejam e a criarem uma comunicação autêntica de dentro para fora. Há quatro anos saí do mundo corporativo para desenhar o meu próprio estilo de vida e trabalho e há alguns meses, por conta dessa mudança, realizei o sonho de viajar o mundo. É por isso que estou aqui.

Chegar na Nova Zelândia aos 28, depois dessa significativa trajetória, só me faz acreditar que sim, empreender é uma viagem, com passagem só de ida, mas que promove grandes reviravoltas na vida. Nada melhor para quem gosta de voar com emoção, né?

Matéria escrita para a Revista MBA - NZ