Um desabafo sobre estar sozinha na estrada

Esses dias ouvi o podcast sobre nomadismo digital do Mamilos, um programa que adoro. Fiquei feliz pelas apresentadoras abordarem um assunto tão presente na minha vida, tão atual, tão desafiador. Mas me senti um tanto incompleta e parte da minha realidade ocultada. Como mulher, gostaria de ter sido contemplada pela visão de mundo de outra mulher viajante. Trazer apenas o ponto de vista masculino (em qualquer cenário, aliás) passa a sensação de que falta algo. Você não acha?

 Foto: Ivan Ferreira

Foto: Ivan Ferreira

Senti falta de acolhimento quando o assunto são as relações que construímos no caminho e as situações que passamos em torno delas, como, por exemplo, ter que ouvir de um homem que ele não tem onde dormir - coitado, esperando que você vá oferecer a sua cama. Sobre o receio de andar sozinha à noite e não ter outra opção já que você se planejou para aguardar o seu vôo no aeroporto mas ele fecha, então você tem que ir embora. Sobre compartilhar o quarto do hostel com um cara sonâmbulo - será? - que no meio da noite surge, em pé, do seu lado. Sobre ser xavecada pelo motorista da van que te deixa por último para não perder a oportunidade de dizer o quanto você é bonita - e sabe-se lá se ele vai te deixar no destino que você pediu. Sobre o abuso nas relações de trabalho, que eu não vivi porque aprendi a me expressar, mas que vi outras mulheres viverem. Sobre o coleguinha gringo que se acha no direito de sentar na sua mesa, atrapalhar a sua reunião e te convidar para uma massagem no flat dele, porque você é brasileira e dizem que as brasileiras são soltinhas - palavras que saíram da boca dele. Sobre o fato de que o nomadismo digital é uma prática que tem se tornado cada vez mais comum entre homens e casais - vi pouquíssimas mulheres vivendo esse estilo de vida - e que eles (os homens), claro, desfrutam de mais conforto porque, infelizmente, ainda são mais valorizados no mercado de trabalho e ganham mais que nós.

Ixe, a lista é vasta.

Vamos falar dos tabus acerca dos estereótipos que caem cima como verdades absolutas e que nos cobramos diariamente, como: a depilação que não tá em dia, o cabelo que tá sem corte, as unhas que não estão feitas. Sendo uma mulher vaidosa - e consciente - estou sempre vigiando esses pensamentos para entender se estou me arrumando pra mim ou se é para me sentir aceita. Ah, vamos falar de menstruação? De candidíase? De relação sexual? De abuso? De gravidez inesperada? De filho? De aborto? De traumas psicológicos e emocionais? Situações que estamos sujeitas e que na estrada se intensificam por tudo ser "mais passageiro"?

Nessa vida nômade, parece que estamos mais suscetíveis. Nossas sombras aparecem, somos mais instintivas, mais selvagens. Mas aprendemos a nos colocar em primeiro lugar, a resolver questões básicas de subsistência que não estão no dia a dia de quem tem um lar fixo, como por exemplo, ter onde dormir - é bom não deixar para decidir na última hora. Questões que se tornam “fichinhas" pra nós que temos que aprender a lidar com tantas outras situações que vida nos impõe, simplesmente por sermos mulheres. Não tem outro jeito a não ser: criar meios para a nossa autodefesa.

O meu conselho para todas as mulheres que querem cair no mundo e sentir a brisa entre os dedos - sim, em contrapartida é extremamente libertador, é: voe de olho aberto. Esteja atenta. Se previna. Cuide da sua saúde. Não fique bêbada sozinha. Não fique bêbada. Se precisar, fale, expresse, faça cara feia, fique brava, grite. Peça ajuda. E, onde quer que você esteja, se aproxime de outras mulheres. Elas sabem acolher. Na dúvida de como fazer isso: “mulher se respeita olhando nos olhos”, trecho que ouvi e jamais esqueci no documentário “Tão longe é aqui”, da Elisa Capai, que me inspirou do início ao fim nessa trajetória.

Se é nas ruas que buscamos representatividade, é nas ruas que vamos estar e a nossa voz precisa ser ouvida. Falo agora da Tailândia, onde vivo a experiência de nômade digital e em alguns dias chego na Nova Zelândia. Se estou feliz? Plenamente realizada!

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